O Deus que habita em mim, saúda o Deus que habita em você

JC, judia, tem um pretendente católico. O rapaz leva um terço no carro. Quando soube disso, logo indaguei se o santo rosário ficava pendurado no retrovisor, o que esteticamente vocês sabem… Mas, graças a Deus, o artigo religioso fica guardado no porta-luvas, esse compartimento do veículo que armazena os mais variados itens relevantes aos motoristas precavidos ou esquecidos pelos condutores de outro naipe, como eu. Aliás, outro dia, do nosso porta-luvas, que em muito se assemelha a um “achados e perdidos”, brotou um quipá. O solidéu é usado pelos judeus em ocasiões solenes e de devoção para lembrar que Deus está sempre nos observando. Como o quipá foi parar ali ao lado do CD da Mart’nália? Essa é a pergunta que deveríamos fazer ao rabino de uma congregação mais liberal. Talvez Deus quisesse escutar “Vou arrancar sua saia e pôr no meu cabide só pra pendurar / Quero ver se você tem atitude e se vai encarar”.

Religião nunca foi uma questão levada a sério na minha família. Encaramos o judaísmo mais como uma questão cultural do que religiosa. O primeiro jantar oferecido pelos meus pais recém-casados aos amigos da comunidade tinha como menu:  casquinha de siri (os siris foram comprados vivos na Barra e limpos um a um), lombinho de porco e musse de chocolate. Os convidados eram judeus ortodoxos, clientes do escritório de advocacia do meu pai, que não achou relevante mencionar à jovem esposa a religiosidade dos convivas. Nem o cafezinho eles tomaram! E aposto que nessa noite meu pai perdeu uma boa fatia do mercado. Já minha mãe ganhou alguns quilos extras dando conta sozinha dos pratos salgados e da travessa de sobremesa.

Por isso, estranhamos quando JC nos comunicou que faria bat mitzvá. Ritos de passagem que marcam o fim da infância e a passagem para a vida adulta são comuns em várias culturas. No judaísmo, ao completar 13 anos, o jovem atinge a maioridade religiosa e, pela primeira vez, é chamado a ler a Torá. A palavra mitzvá significa mandamento que deve ser cumprido e início de uma “conexão” com o Todo-Poderoso. A festa merece destaque igual ao dos casamentos no calendário familiar, mas normalmente é reservada aos descentes masculinos na árvore genealógica. Pois é, o machismo está presente nas três grandes religiões monoteístas. Mas, se assim foi posto, não é obrigatório que se perpetue.

Suely trabalha com psicóticos. Tem uma paciente que acha que é Deus e só aceita assim ser chamada. Muitas vezes, ela liga para o posto de atendimento e diz: “Advinha quem está falando?”. Quem erra a resposta é claramente um infiel, porque não está ouvindo a voz divina. E, assim como na vida real, Deus raramente aparece… mas telefona com frequência. Outro dia, Deus estava com um problema sério, vestia saia. “Onde já se viu Deus de saia?!” – questionou. Suely, do lado de cá da linha, tentou ajudá-la, sugerindo que procurasse outra opção em seu armário. Mas parece que era o único figurino disponível. Então Suely tranquilizou-a: “Assim é melhor, não é, porque reforça o disfarce?”.  As duas concordaram, e Deus ficou feliz com sua saia de algodão lá em Irajá.

No candomblé, não há diferença entre o sacerdócio feminino e o masculino. Mãe de santo manda tanto quanto pai de santo. E curiosamente a casa mais antiga de candomblé, a Casa Branca do Engenho Velho, fundada no século XIX, desde seu início só aceita iniciar mulheres. O candomblé surge como a primeira instituição feminista no Brasil. Cabe uma pesquisa do espiritismo, hinduísmo, budismo etc. No meu humilde ponto de vista, acho que Caetano tem razão: “Deus é menino e menina”…

Voltando à equação JC / bat mitzvá e nossa estranha família, tentamos, a princípio, dissuadi-la. Se ela queria uma festa, a gente podia fazer uma, não necessário o lance da sinagoga. Mas não, JC tinha decidido que queria afirmar sua religião. O pai foi batizado, eu nasci do ventre de mãe judia (logo, sou judia), mas festejamos o Rosh Hashaná, o Yom Kippur e durante muitos anos, no Natal, contratávamos um Papai-Noel que vinha de táxi de Niterói, porque não íamos perder essa festa. Só que uma vez substituíram o Bom Velhinho, e o novato, não conhecendo o protocolo da maison, começou sua fala dizendo que estávamos ali reunidos para comemorar o nascimento de Jesus. Foi necessária a rápida intervenção de um tio que cochichou em seu ouvido: texto errado, amigo.

Então, se JC queria ter aulas de hebraico, conversar com o rabino e ler a Torá, ok. “Roma locuta, causa finita”, Roma já falou, fim de papo! E verdade seja dita, o avô materno, que só tem netas, ficou bem contente. E diferente do personagem principal do romance Buddenbrooks, de Thomas Mann, que decide que é o último de sua linhagem, JC decidiu dar continuidade à tradição dos Chindlers. Ela seguiu à risca o protocolo, mas a gente não ia conseguir tirar 10 em religião.

Eu estou sempre naquele tempo verbal “ainda não cheguei lá” e, assim, todos os preparativos são feitos nos últimos minutos do segundo tempo. Faltando apenas três semanas para a festa, comecei a produção dos convites. Achei que ficava sofisticado uma citação da Bíblia em hebraico com tradução em português. Alguém da sinagoga sugeriu este trecho “Bendito seja nosso D´S Rei do universo que nos fez viver, que nos fez existir e que nos fez chegar a esse momento”. Mas aí os problemas começaram. Nossos computadores não tinham teclado com as letras em hebraico e ainda não havia sido inventado o Google translate. Encarecidamente solicitamos à secretária do rabino que o trecho fosse traduzido e enviado por e-mail. Os funcionários do templo alertaram que não daria certo, porque não tínhamos o programa para essa língua, e o texto perderia o formato original. Foi preciso enviar um portador à sinagoga para que ele nos trouxesse um disquete. Abrimos o texto no programa de imagem, e eu, que apenas conheço as letras e sei que hebraico se escreve ao contrário, ou seja, da direita para a esquerda, confirmei para o designer que estava tudo certo, de modo que os convites foram impressos e distribuídos. Como vocês verão, me saí uma grande revisora…

Na véspera da cerimônia, como era de bom tom, meus pais foram entregar em mãos um convite para o rabino, que ao lê-lo arregalou de tal forma os dois olhos que estes ficaram mais salientes do que os do ator Marty Feldman. Minha mãe saiu de fininho da sala e me ligou correndo, perguntando quem tinha me passado o texto. Nós, que não valemos nada, já começamos a rir, imaginando que a secretária havia trocado os disquetes e nos enviado uma nota fúnebre convidando para a reza de algum falecido Jacob. Ou quem sabe o anúncio de um Brit Milá (circuncisão), esse, sim, um evento religioso exclusivo dos meninos, por motivos óbvios. Infelizmente, em seu escritório, o rabino não compartilhava do mesmo senso de humor. Mesmo atarefado com os preparativos de sua prece, ele precisava descobrir o que havia acontecido. E não foi necessário contratar nenhum Sherlock Holmes para chegarmos ao veredito final: a culpa era toda do Corel; o texto não havia sido salvo como imagem, e o programa misturou todas as letras ao abrir o arquivo. Em suma, em nosso convite não estava escrito nada em hebraico. Adoramos! O que são as grandes celebrações sem boas histórias para contar no futuro?

Devo dizer que 60% dos nossos amigos são ateus, católicos, espíritas, flamenguistas, tricolores, vascaínos e uma minoria botafoguense. Dos 40% judeus, metade, familiares, e apenas 2%, alfabetizados em hebraico. Então ninguém reclamou. O único receio da minha mãe era Paulete, mas essa amiga 100% judia, graças ao Senhor um tanto quanto dispersa, apenas comentou “achei muito original o convite escrito em aramaico!”.

É no bar mitzvá que o jovem sobe, pela primeira vez, à Torá. Essa chamada recebe o nome de aliá (subida) e compreende a leitura, de um trecho do texto bíblico, iniciada e finalizada com uma benção.

Já profetizava o filósofo alemão Nietzsche no conceito do Eterno Retorno. “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência (…) A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!”.Tudo já aconteceu e acontecerá de novo!

Voltamos ao primeiro jantar dos Chindlers… A parashá, o texto da Torá, que JC recebeu para ler era a respeito de comida kosher. Aposto que o trecho foi escolhido a dedo por Deus para enquadrar a nossa família. Kosher são alimentos que foram preparados de acordo com as leis bíblicas. Entre as carnes de animais terrestres, poderão ser kosher apenas as de ruminantes com casco totalmente fendido, como as carnes de boi e carneiro. O porco, embora tenha o casco fendido, não é ruminante, portanto, lombinho de porco nem pensar! Do mar, só os peixes de barbatanas e escamas, tais como sardinha, salmão, robalo e atum. Frutos do mar, como camarão e casquinha de siri, estão fora também! Então, no almoço que sucedeu à solenidade do bat mitzvá com o rabino convidado, não rolou linguiça no feijão!

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