No coração do Brasil

Um daqueles dias em que minha adolescente de estimação estava me enlouquecendo, passei umas nove mensagens no WhatsApp pedindo um help à psicanalista dela. Recebi uma resposta lacônica: “Negocie com ela”. Digamos que M – a psicanalista – não é lá muito prolixa… Aí me lembrei da mãe de uma amiga de JC que tentava ser moderninha e só passava mensagens com emojis, aqueles desenhos cafonas do aplicativo do celular. A filha gastava horas, com a ajuda dos universitários, tentando decifrar o enigma materno, que nem a Esfinge de Tebas teria proposto. Então, encarei a resposta de M, desta forma: “Decifra-me ou devoro-te!”.

Nós, judeus, temos um humor um tanto peculiar, muito apreciado pelos fãs de Woody Allen e Groucho Marx… Em outubro, minha mãe – no caso a avó judia da história – sugeriu um programa incrível de “presente” para a neta e a levou para Inhotim. Como minha adolescente de plantão não gosta de arte contemporânea, não gosta de calor e não gosta de andar, ela simplesmente, para nossa surpresa: odiou!

Então, quando as férias de verão chegaram, antes de presenteá-la com outro elefante branco, o “negocie com ela” ecoou em meus ouvidos. Como Édipo às portas de Tebas, eu teria que resolver o quebra-cabeça ou seria devorada. E não era assim tão difícil, o problema é que a resposta pode estar ali, na nossa fuça, e a gente não enxergar. Negociar era o primeiro passo. Às vezes, em se tratando de batalhas e guerras, nós, mães, podemos deixar de ser tão Wladimir Putin para ser mais Mujica…

Nessa barganha, de cara, descartamos as praias. Minha twenty-four-seventeenager não gosta de areia, porque afunda; não gosta de mar, porque a água é salgada e não gosta de calor, porque é calor. São três “nãos” em um só cenário… Deleta essa opção. Acabamos chegando à conclusão de que ela queria uma praia de rio, com água doce, mas que não precisasse andar muito – ou seja, nada de trilhas. Abrimos o mapa e encontramos nosso destino: o Jalapão!

Pergunta valendo 10 pontos: em que estado fica o Jalapão? Vou logo explanar que vários amigos do Face confessaram depois que achavam que eu estava na Ásia. Afeganistão, Azerbaijão, Cazaquistão, Paquistão, Quirguistão, Tajidquistão, Turcomenistão, Uzbequistão e Jalapão! Faz todo sentido! Sufixos são elementos isoladamente insignificantes que, acrescentados a um radical, formam uma nova palavra. Sua principal característica é a mudança de classe gramatical que geralmente opera. Nesse caso específico, o singelo “ão” conseguiu uma façanha extraordinária: deslocar uma área de quase 34 mil km² para o outro lado do planeta em um piscar de olhos.

Mas não respondi à pergunta. Em que estado do Brasil fica o parque do Jalapão? Gláucia – que se expressa em um português corretíssimo –, foi uma das poucas pessoas a acertar a questão: no Tocantins. Eu, enquanto isso, nem tinha conhecimento de que o estado de Goiás havia se dividido. Mas minha desculpa é boa porque esse racha foi em 1988, quando eu já não sentava nos bancos escolares e, portanto, não estava muito atenta à geografia que acabara de pintar no azul da nossa bandeira a vigésima sexta estrelinha. É preciso confessar, abençoamos o dia em que finalmente nos libertamos do Ensino Médio, e a infeliz tabela periódica, a ordem dos planetas no sistema solar, os afluentes do Rio Amazonas, assim como os estados e suas respectivas capitais não nos afligem mais. O pior é que tá tão bem decorado que não consigo deletar da memória ram o macete do menu completo que minha velha trouxe “Sopa, uva, nozes e pão”. E Plutão faz essa sem-vergonhice de deixar de ser planeta e tira toda a sustância do meu jantar. Lá se foi o carboidrato. Uma dieta sem glúten.

Por sorte, ninguém quer ir para o Centro-Oeste na estação das chuvas, e as passagens aéreas estavam uma pechincha: R$400,00 por pessoa! Ida e volta, porque ninguém quer ficar lá… D. Ana Maria, a avó, conhecia Lazara, a agente de turismo que é a cara do cerrado, e em uma noite tudo estava resolvido. Ou quase tudo, porque nesse verão a JC – esquadrão da moda – informou-me que boné era o “ó” e que o “certo” são as viseiras, mas nós só tínhamos uma em casa. Entretanto, JC não tinha expertise na passarela do Brasil central, como logo testemunharíamos…

Nosso voo fazia escala em Brasília. Quando todos os passageiros que iam para Palmas, capital do Jalapão, sentaram em suas devidas poltronas, percebi que a estética do coração do Brasil era um pouco distinta. Onze horas da noite, dentro do avião, sem nenhuma chance de um ínfimo raio de sol, metade dos passageiros estava de boné, e nenhunzinho, de viseira! Avisei às meninas que as enquadraria na moda local assim que chegássemos em terra firme e adquiriria um boné pra cada uma com dizeres obrigatórios dos recuerdos de férias “I Love Jalapão”.

Jalapão-web

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