A saga dos hamsters

No ano em que me separei do pai das meninas, a caçula perguntou se o Papai-Noel trazia coisas vivas. De bate pronto, respondi que não. Pequenos animaizinhos não sobreviveriam à longa viagem de trenó, e “coisa vivas grandes”, além de ocupar muito espaço, fariam uma bagunça tremenda, comprometendo a entrega dos presentes. Foi uma resposta deveras convincente – ou, ao menos, bastante plausível –, e crianças são seres crédulos. Mas eu sou uma trouxa. Deve ser culpa do ascendente, do horoscopo chinês ou de alguma pendência de encarnações passadas….  pois não me aguentei e voltei de marcha a ré. Pensei: Tadinha, este ano todas as outras crianças (exceto ela e a irmã) vão estar com o pai no Natal, não custava nada o Papai-Noel fazer uma forcinha e trazer um bichinho…. E eu, que não sou nada competitiva, logo virei o jogo da minha derrota. Vai ser a única criança com um presente que anda. Vamos arrasar!

Então decidi por um hamster. Um só, porque roedores são um perigo no quesito empolgação, eles se reproduzem em progressão geométrica. Basta um casal e um piscar de olhos e já temos uma paródia dos pássaros de Hitchcock.

Na noite natalina, o Papai-Noel decorou lindamente o texto e desempenhou seu papel à altura dos atores ingleses. Quando tirou de dentro do saco vermelho a gaiola com a hamster castanha, fez-se um silêncio na sala. Isabel, com seus cinco anos, não piscava os enormes olhos pretos e chupava os dedos em ritmo acelerado.

Assim veio ao nosso mundo, nesse debut triunfal, Esmeralda, batizada com o nome da protagonista do desenho animado que era a sensação daquele verão. Inauguramos, nesse dia, na nossa nada pacata vida doméstica, a dinastia das hamsters!

Deveria continuar dizendo que se passaram anos, só que não. Esmeralda não durou muitos verões. Culpa minha. Um dia, sabe lá por que motivo, achei que ela ia se distrair admirando a vista e pus a gaiola no peitoril da janela. Acontece que hamsters são fugitivos em potencial. Os bichos abrem qualquer tranca, e daí para voar sete andares foi um instante. A senhorinha que morava no térreo avisou ao porteiro que tinha caído um brinquedo. Lembrei do coiote estatelado do Cartoon Papa Léguas.

Esmeralda foi para o céu dos roedores, era uma ratinha fofa, e eu arranjei mais um problema para a coleção. Isabel estava na escola, tínhamos poucas horas para encontrar uma sósia. Não devia ser muito difícil. Para garantir o sucesso da missão, nos dividimos em zonas de atuação. A secretária do meu pai (que faz de bolo a maquiagem) foi procurar no Centro, a cozinheira lá de casa pegou um táxi e seguiu para o Rio Sul, o namorado novo foi checar as petshops na Tijuca, e eu fiquei coordenando os trabalhos. Só que justamente essa semana as hamsters cor de areia dourada estavam em falta. A cozinheira, para não chegar de mão abanando, me apareceu com duas ratas cinzentas que davam medo e nem passaram da porta.

Quando a mãe de Esmeralda voltou da escola, sentamos para conversar. O assunto era delicado e exigia concentração. Expliquei que a ratinha estava doente, que tinha ido ao veterinário e que talvez ela mudasse de cor.  As crianças são seres esquisitos e acreditam em coisas bizarras, graças a Deus! Não estudo psicologia, mas tenho certeza de que Freud, que teima em jogar toda a culpa do mundo nas nossas costas, afirmando, sem pestanejar, que as mães são a causa de todas as neuroses dos filhos, desta vez, só desta vez, teria razão. Pensando bem, também teve o ano em que eu viajei para o Vietnã e instruí ao pai que não contasse a Isabel que era aniversário dela, para depois comemorarmos juntas, mas ela acabou descobrindo pela data do jornal… O que importa é que, para minha surpresa, Bebel aparentemente não só não deu muita pelota para a notícia, como também cogitou se então a hamster poderia voltar na cor branca.

A segunda geração. Esmeralda voltou duplicada, branca e castanha. A culpa me fez dobrar as confusões. Malheureusement a clone castanha não era tão boazinha e, volta e meia, Esmeralda 2 – a Missão tascava uma dentada em um desavisado. Já a amiga branquinha tinha uma saúde de Dama das Camélias e morreu jovem de morte morrida – e não suicidada como a antecessora. É importante dizer que Isabel passou 10 anos sem suspeitar de nada, até que um belo dia a fofa da avó revelou a tragédia da hamster voadora. Se mãe dá trauma, imagina avó (duas vezes mãe)!

Partimos para a terceira geração das hasmters… Para vocês verem como uma boa ideia dá frutos em cascata… Outubro, presente do Dia das Crianças: Esmeralda 3. Essa tinha temperamento dócil, mas, tal qual suas antepassadas, à noite parecia ter bebido de canudinho meia dúzia de energéticos e corria na rodinha como uma malhadora compulsiva. E o cheiro de xixi de rato empesteava o ambiente para todo o sempre, amém!
Um dia, estava trabalhando quando recebi o telefonema: “Mãe, aconteceu uma coisa muito, muito triste. Joaquim comeu o presente do Dia das Crianças da Isabel”. E assim, de morte matada, foi-se embora para a terra dos pés juntos, despachada dessa para melhor pelo Dachshund, também morador da maison, nossa última Esmeralda!

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