É Tudo uma Questão de Ponto de Vista

A cada dia que passa, reforço a minha convicção de que o que determina latitude e longitude não é a nossa posição na terra frente a linha do Equador e o Meridiano de Greenwich. As coordenadas geográficas são traçadas por outras linhas imaginárias. A minha família, por exemplo, tem essa questão cartográfica com a Barra da Tijuca. O Vale do Jequitinhonha, no interiorzão de Minas, distante do Rio de Janeiro quase 900 km, é logo ali. Minha mãe dirige até lá num piscar de olhos. Porém uma noite dessas compramos ingresso para um espetáculo que só tinha na Barra da Tijuca, que tem fuso horário, e aí foi preciso alugar uma van!

Semana passada era Pessach, como dizem por aí a Páscoa judaica. Não tenho a menor ideia de por que usam essa comparação. Pelo que eu saiba ninguém voltou de lá de cima no Antigo Testamento. Ai J.C. – que nesse caso não é Jesus Cristo, mas Júlia Chindler – resolveu narrar o segundo livro do Pentateuco, Êxodo, digamos que sob uma nova ótica.

“(…) essa parte da história, se fosse relatada em outras circunstâncias fora da Bíblia, como no Posto 9 de Ipanema, ia ser duro de dar crédito. O cara escuta um matinho pegando fogo, não sei que espécie de arbusto era esse, mas a erva era das boas para bater assim. Escuta e obedece. Pelo menos é isso que ele conta lá para a patroa, a tal de Tzípora, antes de partir para o Egito para arrumar confusão com o faraó.

Porém o faraó não era páreo para Moisés, que tinha um aliado de peso ao seu lado.  Marcando ponto no placar dos hebreus – 10 pragas X 0! Foi uma lavada. Moisés ganha a disputa e carrega todos os escravos com ele, deixando os engenheiros com um problemão nas mãos: Quem iria finalizar as pirâmides encomendadas?

Depois o nosso 007 abre o Mar Vermelho, congelando as ondas, para levar mais gente que o metrô em direção a Copacabana no dia de Ano Novo. Segundo a Wikipédia, fonte muito confiável, eram 600 mil homens, mais mulheres, crianças e ainda tinham os rebanhos. Gente saindo pelo ladrão.

Moisés era o quê? Oposição, partido dos trabalhadores. Aí ele carregou toda aquela galera do MST para o deserto. Péssimo de GPS, tanto latifúndio improdutivo às margens do Nilo e o cara vai para o outro lado. Me poupe, né.

Mas vamos falar a verdade; tá parecendo uma adaptação da Record dos 12 trabalhos de Hércules: o homem é um Ronaldinho, em seus bons tempos, driblando todas as adversidades a caminho do gol. E tudo isso para quê? Para chegar na outra praia com todo mundo vivo e seco e pedir só um instantinho para desenrolar lá na montanha com o Todo Poderoso. Deus, até então, era o legislativo, o executivo e o judiciário, tudo assim condensado, pois ainda não havia acontecido o Big Bang da descentralização que dividiu os poderes. E aí o que o povo faz? Moisés sai de cena 5 minutos e a galera já cai no pecado. Concordo com D´us – é duro ser timoneiro dessa embarcação!

Tenho estudado História da Arte e tô vendo que esse papo de abstração é complicado. A figuração é muito mais popular. Todo mundo gosta de um desenhinho. Imaginem que lindo não era uma estátua toda banhada em ouro, cheia dos dourados no melhor estilo perua Barra da Tijuca e paulista com casa de praia em Miami.  Na boa, que me desculpe Malevich com seu quadrado negro, o povo gosta mesmo é de Romero Brito.

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2 comentários sobre “É Tudo uma Questão de Ponto de Vista

  1. Pequena nota técnica: a Pessach não é a Páscoa judaica, a Páscoa é que é a Pessach cristã. No início cristãos eram todos judeus, e nos dois primeiros séculos, os seguidores do Nazareno se dividiram: manter a religião restrita ao povo eleito ou se liberar geral pros gentios (góis)? Um resquício desse tempo é que, até, hoje os bispos usam solidéu (kipá). Os primeiros textos, especialmente o Evangelho de Mateus, estão profundamente ligado ao judaísmo. O Evangelho de Mateus (o mais antigo) é rico em mostrar como Jesus era um bom judeu, e sabia de cor e salteado a Torá. Nesse sentido, a morte do Messias (Cristo é uma palavra grega que só entrou depois na parada), em plena Pessach, tem profundo significado judaico: Jesus é o carneiro sacrificado para salvar (daí o Salvador) o povo. O sangue de Cristo (o vinho da Eucaristia) é literalmente o sangue do Cordeiro de Deus. A cerimônia conhecida como Última Ceia teria sido um Seder, e Páscoa é corruptela de Pessach, que quer dizer passagem. Mas, ao contrário da passagem do seu super-herói desorientado Moisés, seria a passagem para a ressurreição (não confundir com reencarnação, esse é outro de discussão infinita). Mas qual povo seria salvo? Os mais conservadores às tradições judaicas queriam restringir aos judeus (tecnicamente falando, o Cristianismo é uma seita do Judaísmo). Os seguidores de Paulo, que antes era Saulo, o universalista (católico = katolikos, grego, com o significado de “geral” ou “universal”), ganham a discussão: todo mundo pode virar cristão, mesmo não sendo judeu (a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser). O curioso é que, rapidamente, a seita fica muito maior que a religião-mater, e deu essa confusão: para os cristãos, católicos ou não, boa parte da Torá é tão sagrada quanto o Evangelho. Mas na transição para ser religião oficial do Império Romano, era importante negar a origem judaica (judeus deram um bocado de trabalho para Roma): inventam o deicídio (os judeus são acusados de matar Deus, um crime um tanto bizarro), e daí à perseguição na Idade Média e depois.

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