007 abre o Mar Vermelho

Hoje é Pessach, como dizem por aí a Páscoa judaica. Não tenho a menor ideia de por que usam essa comparação. Pelo que eu saiba ninguém voltou de lá de cima no Antigo Testamento. Ai J.C. – que nesse caso não é Jesus Cristo, mas Júlia Chindler – resolveu narrar o segundo livro do Pentateuco, Êxodo, digamos que sob uma nova ótica.

“(…) essa parte da história, se fosse relatada em outras circunstâncias fora da Bíblia, como no Posto 9 de Ipanema, ia ser duro de dar crédito. O cara escuta um matinho pegando fogo, não sei que espécie de arbusto era esse, mas a erva era das boas para bater assim. Escuta e obedece. Pelo menos é isso que ele conta lá para a patroa, a tal de Tzípora, antes de partir para o Egito para arrumar confusão com o faraó.

Porém o faraó não era páreo para Moisés, que tinha um aliado de peso ao seu lado.  Marcando ponto no placar dos hebreus – 10 pragas X 0! Foi uma lavada. Moisés ganha a disputa e carrega todos os escravos com ele, deixando os engenheiros com um problemão nas mãos: Quem iria finalizar as pirâmides encomendadas?

Depois o nosso , congelando as ondas, para levar mais gente que o metrô em direção a Copacabana no dia de Ano Novo. Segundo a Wikipédia, fonte muito confiável, eram 600 mil homens, mais mulheres, crianças e ainda tinham os rebanhos. Gente saindo pelo ladrão.

Moisés era o quê? Oposição, partido dos trabalhadores. Aí ele carregou toda aquela galera do MST para o deserto. Péssimo de GPS, tanto latifúndio improdutivo às margens do Nilo e o cara vai para o outro lado. Me poupe, né.

Mas vamos falar a verdade; tá parecendo uma adaptação da Record dos 12 trabalhos de Hércules: o homem é um Ronaldinho, em seus bons tempos, driblando todas as adversidades a caminho do gol. E tudo isso para quê? Para chegar na outra praia com todo mundo vivo e seco e pedir só um instantinho para desenrolar lá na montanha com o Todo Poderoso. Deus, até então, era o legislativo, o executivo e o judiciário, tudo assim condensado, pois ainda não havia acontecido o Big Bang da descentralização que dividiu os poderes. E aí o que o povo faz? Moisés sai de cena 5 minutos e a galera já cai no pecado. Concordo com D´us – é duro ser timoneiro dessa embarcação!

Tenho estudado História da Arte e tô vendo que esse papo de abstração é complicado. A figuração é muito mais popular. Todo mundo gosta de um desenhinho. Imaginem que lindo não era uma estátua toda banhada em ouro, cheia dos dourados no melhor estilo perua Barra da Tijuca e paulista com casa de praia em Miami.  Na boa, que me desculpe Malevich com seu quadrado negro, o povo gosta mesmo é de Romero Brito.

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2 comentários sobre “007 abre o Mar Vermelho

  1. Pequena nota técnica: a Pessach não é a Páscoa judaica, a Páscoa é que é a Pessach cristã. No início cristãos eram todos judeus, e nos dois primeiros séculos, os seguidores do Nazareno se dividiram: manter a religião restrita ao povo eleito ou se liberar geral pros gentios (góis)? Um resquício desse tempo é que, até, hoje os bispos usam solidéu (kipá). Os primeiros textos, especialmente o Evangelho de Mateus, estão profundamente ligado ao judaísmo. O Evangelho de Mateus (o mais antigo) é rico em mostrar como Jesus era um bom judeu, e sabia de cor e salteado a Torá. Nesse sentido, a morte do Messias (Cristo é uma palavra grega que só entrou depois na parada), em plena Pessach, tem profundo significado judaico: Jesus é o carneiro sacrificado para salvar (daí o Salvador) o povo. O sangue de Cristo (o vinho da Eucaristia) é literalmente o sangue do Cordeiro de Deus. A cerimônia conhecida como Última Ceia teria sido um Seder, e Páscoa é corruptela de Pessach, que quer dizer passagem. Mas, ao contrário da passagem do seu super-herói desorientado Moisés, seria a passagem para a ressurreição (não confundir com reencarnação, esse é outro de discussão infinita). Mas qual povo seria salvo? Os mais conservadores às tradições judaicas queriam restringir aos judeus (tecnicamente falando, o Cristianismo é uma seita do Judaísmo). Os seguidores de Paulo, que antes era Saulo, o universalista (católico = katolikos, grego, com o significado de “geral” ou “universal”), ganham a discussão: todo mundo pode virar cristão, mesmo não sendo judeu (a festa é sua, a festa é nossa, é de quem quiser). O curioso é que, rapidamente, a seita fica muito maior que a religião-mater, e deu essa confusão: para os cristãos, católicos ou não, boa parte da Torá é tão sagrada quanto o Evangelho. Mas na transição para ser religião oficial do Império Romano, era importante negar a origem judaica (judeus deram um bocado de trabalho para Roma): inventam o deicídio (os judeus são acusados de matar Deus, um crime um tanto bizarro), e daí à perseguição na Idade Média e depois.

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