Só vai quem bebe latão – a festa do ano!

Existem fortes indícios de que o trem vai sair do trilho quando a noite começa com uma garrafa de catuaba selvagem entrando no circuito. Éramos umas dez mulheres e apenas dois rapazes no traslado express que partiu de Laranjeiras para a Baixada em direção ao Boteco da Angelina. O bonde da kombi seguia orientações de um mapa do tesouro onde estava assinalado com um X o número 37 da Rua do Canal, em Duque de Caxias. Qualquer dúvida era só ligar para o Jacaré, também conhecido como Ariosvaldo Juvêncio da Silva. As referências eram pouco precisas: atrás da garagem da TREL – Transturismo Rei –  e o aplicativo Waze funciona tanto na região como na mão dos motoristas do Uber).

Descrição do cenário da festa de arromba: terreno da tia crente do namorado taxista de Angelina, a aniversariante. Fartura na mesa, porque essa pobreza de comida minimalista é coisa do Leblon. Um lindo leitão assado enfeitado com a tradicional maçã vermelha na boca e morangos nos olhos repaginando o visu do prato. Churrasco com muita linguiça e picanha. Abacaxi como suporte para os palitinhos com ovos de codorna e molho rosê.  Cerveja a rodo, garrafas de cachaça e show ao vivo com a banda Furacão do Forró. O microfone da crooner era cravejado de lantejoulas e fazia jus à performance da diva, que cantava de costas lendo as letras no celular quando não tinha uma música decorada. Arrasou!

Nem é preciso dizer que todos meteram o pé no jacá. E para aqueles que estranharam o artigo masculino e o acento, concordo que também acabei de descobrir que originalmente não se fazia referência à visguenta fruta, mas sim ao jacá, cesto trançado de taquara ou cipó que os índios chamavam de aya’ka, usado aos pares, um em cada flanco das montarias de carga. Cássio Loredano, filho de um oficial da cavalaria e chegado a um botequim, explicou que os peões, quando se empolgavam além da conta, metiam os pés nos cestos no lugar dos estribos.

Vinicius de Moraes já dizia: “O melhor amigo do homem é o uísque; o uísque é o cachorro engarrafado”.

“Cadê a turma da latinha e do litrão / Cadê, cadê os cachaceiros de plantão” – Alex e Ronaldo não estão no meu playlist, mas à meia-noite a garrafa de catuaba já estava na reserva e o leitãozinho servido. A aniversariante repetia o bordão “E botando e derramando que uma amiga me ensinou”. Eu parecia a única evangélica do grupo, tomando água sem gás. Às vezes chego a pensar que o criador me fez geneticamente avessa ao álcool para tentar convencer os infiéis. Ao longe me observava a mãe do namorado da aniversariante, que logo me escolheu para nora do seu outro filho. E ainda sou econômica porque não caí de boca no porquinho e levei minha maçã. Quem tem gastrite tem o quê??? Sogra! Fica a dica!

Certa feita, perguntaram ao Jaguar quantas piscinas ele já havia bebido. Ao que ele respondeu: “Umas quinze, olímpicas e de saltos ornamentais, que têm que ter mais água”. O humorista tomou todas que podia nessa vida e ainda está com crédito para as próximas três encarnações. Bebeu tanto que ganhou cartão vermelho e foi forçado a deixar o campo. Do fígado só podemos lastimar ser ele um fraco. Mas se o corpo não aguenta mais, a alma ainda carece. E a imaginação humana é uma delícia. O que seria de nós sem a ficção. Hoje Jaguar carrega para cima e para baixo um spray de bolso, pede um copo com gelo, água tônica e borrifa nas bordas o perfume de gim. Dizem que depois dá dez voltas rápidas no poste para se sentir tonto.

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