Maktub

Não há palavra que consiga conter as mil faces do destino, afirma uma filósofa da internet, e ela deve ter razão. Mas tem muita gente por aí que tatua nas costas, nos braços, e sei lá mais onde a palavra Maktub, particípio passado do verbo árabe Ktab (escrever), “estava escrito”. São os desígnios insondáveis da vontade de Deus. Era para ser assim…

O oráculo de Delfos advertiu ao rei Laio, de Tebas, que ele não tivesse filhos com a rainha Jocasta, porque “ia dar ruim”, mas quem ouviu? Desde que Eva provou a maçã e os homens e as mulheres deram para se conhecer biblicamente, não tem quem segure, nem profecia. O rei não cumpriu o mandamento e teve o filho, depois amarelou e tentou ludibriar o destino e sair assobiando de fininho. Mas Sófocles foi lá e registrou tudinho em Édipo Rei. Não vou dar spoiler e contar o desfecho do enredo para quem não leu, porque aposto que quando a Record acabar com as adaptações dos livros do Antigo Testamento, parte para a mitologia grega. Só fica a dica para quem gosta de romance com final feliz que é tragédia.

Um colega de trabalho, TJ, outro dia contou-me esse acontecido. Uma amiga, ao procurar um psicanalista, recebeu a indicação de um portenho provavelmente torcedor do Boca Juniors. Seria seguro fazer análise com um argentino? Ela pareceu titubear na resposta e foi consultar o tio Google que mostrou um currículo tão extenso que deixou a futura paciente ainda mais desconfiada. Sendo esta uma moça virginiana para lá de pragmática, recorreu ao pacote do Windows e arrumou as informações numa planilha de Excel que fez as vezes de linha do tempo. Haveria tempo na vida desse personagem para tudo que o Lattes anunciava? Uma vez dirimidas todas as dúvidas, segura de que ali não estava um charlatão, a menina iniciou a terapia.

Nas consultas a regra é mais ou menos a mesma do “jogo da verdade”, pressupõe-se que o analisando sente-se em uma confortável poltrona, ou se for desinibido deite no divã e se ponha a contar sua vida. Imagino que foi isso que a amiga de TJ passou a fazer religiosamente duas vezes por semana.

Algumas páginas a seguir nessa história, análogo aos percalços sofridos pelos irmãos que se namoram sem saber quem são nos romances Os Maias, de Eça de Queiroz, e Engraçadinha – Seus Amores, Seus Pecados, de Nelson Rodrigues, o destino fez brotar no caminho de nossa personagem um rapaz interessante que a fez palpitar. Os dois flertam, rolam uns beijos e a descoberta: o moço era filho do psicanalista.

Segue para o sofá do “saia justa”. No dia e hora marcados a moça, cuidadosamente, introduz o assunto no episódio, ou melhor na sessão. Pelo visto o argentino não era conhecedor da expressão “A vida não é fácil, ninguém ganha colher de chá”, e achou que era só uns beijinhos e que o encontro não seria importante.

Avaliou mal a situação. Semana passada a menina marcou uma consulta que durou apenas 5 minutos. E foi a última. Ela entrou na sala e disse: “Preciso interromper o tratamento, ontem dormi com o seu filho na sua casa”. O argentino, apesar do longo currículo, perdeu o rebolado e apenas concluiu: isso é inusitado, nunca me aconteceu antes. Torta de climão.

Trilha de fundo do grupo Rap Oriente, entra o violino de Bruno Silva, lá da Grota do Surucucu, e o beatbox Geninho. Maktub não é um brado de revolta contra o destino. “Té mais / Espero o tempo rolar (…) Vida longa, mundo pequeno, a gente ainda vai se encontrar”.

E fica a dica: no restaurante El Maktub de São Paulo a esfirra é sensacional!

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2 comentários sobre “Maktub

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