Carpe Diem

Dia desses fui tomar a segunda dose da vacina de tétano no posto de saúde e, no corredor de espera, tinha dois caras marombados na minha frente, batendo papo. O tema versava a respeito das tatuagens que cobriam a parte visível, naquele momento, do corpo deles. Já reparei que tatuagens, na maioria das vezes, pedem legenda. Nada é óbvio nessa seara, ainda mais quando o motivo é tribal, ou a língua é o grego arcaico, o japonês, o árabe ou um dialeto. Aliás, tem mais gente lendo latim na pele do que nas antigas missas católicas. Li em um blog que as frases em latim são perfeitas para tatuagens porque estão cheias de grandes significados. Então tá, né! Não consegui acompanhar toda visita mediada ao corpo dos rapazes porque a enfermeira chamou o próximo da fila, e delicadamente os dois me cederam a vez. Dia de sorte. Já de manhã peguei dois cavalheiros e, como estes já não são tão comuns, aceitei a oferta. Quando entrei na sala a enfermeira me confidenciou que a dupla estava lá fazia mais de uma hora, e já havia oferecido a vez para bebês, senhores e para mim, porque eles morriam de medo de injeção. Tomei minha vacina sem frescura e tive vontade de escrever de caneta Bic “Veni, Vidi, Vici”. Saí porta afora vitoriosa como o imperador romano Júlio César.

Mas levei o troco. “A vida dá guinadas de 360 graus”, como diria a nossa querida filósofa Adriane Galisteu. Num jantar semana passada descobri que XX escreveu um testamento na costela. No primeiro segundo, pega de surpresa, só consegui pensar: só falta ter erro de português ou ser uma frase do Paulo Coelho.

Meu segundo passo foi ligar para o pai em busca de reforço psicológico. Digamos que o devaneio dele não ajudou muito: “Imagina, o cara tá transando com uma mulher tatuada e aí se distrai lendo o texto e brocha”. Pega de surpresa, pela segunda vez na noite, só consegui refletir: nem sei como escreve – se é broxa ou brocha….

E qual é o meu problema com as tattoos? A resposta a essa questão são as polainas, acessório cool lançado pela atriz Jennifer Beals no filme “Flashdance”. Os anos 80 passaram e graças ao bom deus as polainas não ficaram grudadas na minha canela. A colega de trabalho de vinte e poucos anos contra-argumenta que a minha geração sempre vem com essa do “para sempre”. Bem, não fui eu que inventei o deus Cronos, é o que posso retrucar em minha defesa.

As feministas que inventaram o slogan “meu corpo, minhas regras” não tiveram dó das mães, tenho certeza.

Voltando à cena, precisava encarar os fatos. Afinal qual era o texto? Resposta de XX: “É uma frase de um filme”. Congelei. “Continue a nadar” (“Nemo”), “Missão dada é missão cumprida (“Tropa de Elite”), “Why so serious?” (“Batman”), “A vida é como uma caixa de chocolates” (“Forrest Gump”), “Find your place in the circle of life” (“O Rei Leão”)?

“É uma frase do filme ‘Cisne Negro’ que me representa.” Confesso que a resposta de XX não me acalmou, já estava me sentindo na série da Netflix “Desventuras em série”.  Talvez o que viesse pela frente me faria preferir a frase de Brad Pitt em “Clube da Luta”, sobre o sabão feito das cinzas dos heróis.

Sem mais delongas e hesitações pus os óculos e lá estava como que datilografado em uma antiga Underwood nas costelas de XX: “The only person standing in your way is you. It´s time to let her go. Lose yourself”.

Acho que dá para traduzir assim: É hora de deixar rolar, chutar o balde. Voltando ao velho é bom latim, tatuagem feita, consummatum est! Em hebraico, diriam os mais espertos: “Ein ma lassot” (nada a fazer).

Um amigo comentou que era uma mensagem subliminar para mim. Eu contra-ataquei alegando que, apesar dos esforços de Freud, nem tudo era inveja do pênis ou culpa da mãe. E, se fosse para mim, era mais simples mandar um zap ou colar um post it na geladeira.

Agora a questão era tentar não matar os avós do coração. A melhor estratégia é tomar a dianteira, estar um passo à frente. Era hora de redigir o discurso de defesa. Durante o almoço de domingo eu comentaria assim como que por acaso: Gente, conheço uma menina que tatuou “Fora Temer” no peito!

A segunda fala do roteiro seria da minha prima: No metrô vi um cara que tatuou “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo”. Certeza que caberia em um diálogo do Harry Potter.

JC (que não é Jesus Cristo, preciso sempre lembrar), fez bat mitzvah e tentaria puxar o clima para o humor: É um Salmo de Davi. E teria sido mais divertido se o cara tivesse tatuado a frase completa: “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam.”

Disfarçando, comento assim como quem não quer nada: Conheço alguém que só tatuou uma frasezinha na costela, coisa à toa, 66 caracteres (sem espaço). Tudo bem que com espaçamento vamos para 82…

Não adianta, o STF vai realmente entrar em pânico. Pensei na prima Vini. Uma noite ligaram para casa dela de madrugada tentando dar um golpe. Disseram que estavam com o seu filho e a doida desatou a chorar, mas ela nem tem filho!  Uma outra conhecida, mais sensata, está convicta na decisão de não deixar herdeiros nessa Terra. E tem essa máxima: “Quem pariu Mateus que o embale”.

 

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