Happy Birthday no Busão

Seis e meia, fim do expediente, hora de meter o pé. Faz uns meses que saí do conforto do lar dos meus coroas, em Jacarepaguá, e com a grana de estagiário contada mudei para o Jardim Sulacap, onde divido uma quitinete com dois amigos.  Meio de transporte: busão 383  ̶  Tiradentes-Realengo. Praça Tiradentes é o ponto final e também o começo da viagem. Dia de sorte, pego lugar sentado, e se for dia premiado ainda pinta de ir na janelinha.

Nessa tarde, o trajeto começou distinto. Botei o pé no ônibus e o ambiente estava estilo “casa de festa pacote básico”. Imagina aí: decoração com bolas e cartazes escritos à mão. E as mensagens tipo assim: “Tio do pavê”, “Dê Brahma, Senhor, dê Brahma, dê Brahma porque a Skol acabou”. Tinha umas meninas animadas colando as cartolinas com durex. Pensei: cenografia original, meio pegada no improviso, mas tá valendo.

Sentei no banco mais alto do ônibus. Roubada o banco mais alto, mas eu não resisto. Ali você vê tudo, mas fica exposto, meio isca; manja minhoca em anzol? E eu, com meu porte atlético, sou isca de assaltante. O ônibus foi enchendo naquela movimentação de fim de tarde e início de noite. Não tem espaço rarefeito, esse lance de pouco denso é para a última camada atmosférica; aqui na realidade carioca, da galera de baixo orçamento, tudo é comprimido. O motorista só dá a partida quando já tá muvucado. Sempre tem um gaiato que grita:

– Tá com calor? Vai de Frescão. Luxo por 13 paus!

De repente, entrou um galerão, e nesse galerão tinha uma menina com bolo na mão. Eu pensei: esse bolo vai chegar destruído. DES–TRUÍ-DO, repeti para mim mesmo. Nenhum bolo guenta rodar duas horas no aperto da condução e chegar impávido colosso no destino final. Fiquei com pena da menina que ia chegar lá não sei onde com o bolo trash, mas não comentei nada e fiquei na minha. Eu sou um cara tipo discreto com piercing, alargador na orelha e calça skinny, que preciso comprar na seção infantil da Renner. Mano, preciso dar uma encorpada, sonho de consumo alcançar o mundo adulto do manequim 38. Não tou muito na vibe de calça com estampa do xerife Woody do Toy Story; meu look pega mais para Herchcovitch. Mas cadê o corpo (droga de pernas que parecem cambitos) e o capital?

Deu o horário e partiu Realengo. Ê, felicidade… Lá vamos nós atravessar toda a Zona Norte e quase metade da Zona Oeste. Sem trânsito, ficção pura, uma hora e quarenta; na hora da bagunça do rush, pode botar aí duas horas e meia. Mal o ônibus começou a rodar, brotou um daqueles tupperware de pobre, caixinha de sorvete da Kibon, – galera apostando no reciclável, valeu selo de meio ambiente.

Carioca é assim, adora aglomeração, parece MDF. Se tá todo mundo aqui ensanduichado, vamos aproveitar para confraternizar. O tupperware começou a circular e me ofereceram uma coxinha. Tem gente que não aceita comida de estranho. Acho mega vacilo. Peguei uma.

A menina que sentou ao meu lado sacou uns cachorros-quentes de forno, feitos naquelas bisnaguinhas Seven Boys. Como ela era das internas, aproveitei para me pôr a par do episódio. Tem uma galera que sai do trabalho mais ou menos na mesma hora e pega esse 383. Aí foi pintando uma afinidade, e daí rolou o calendário dos aniversariantes do mês. Dezembro era aniversário do Alex. Quem é o Alex na fila do pão? – eu quis saber. Em resposta, a informante apontou:

– Aquele ali, que trabalha numa copiadora na rua do Ouvidor.

Também era aniversário do motorista, e ia rolar um amigo-oculto por conta do grande aniversariante do mês: Jesus. A galera também estava comemorando o Natal adiantado.

Antes de mudar para Sulacap, eu pegava sempre o trem em Madureira e saltava ali na Central do Brasil. Cara, não tinha dúvida: ia no vagão dos crentes. Maluco não ia querer ir no vagão do culto, porque era um tanto de aleluia e salmos que convertia um herege. Mas eu ia sonado, e aquele era o vagão que tinha chance de cadeira vazia, então não me fazia de rogado. E aí pintou a festa do vagão, e estava lá eu, uma pessoa esquisita (vamos lembrar o piercing e os outros acessórios) e visivelmente pouco cristã, e veio uma senhora me oferecer um copo de guaraná Flexa.

Ah cara, por que é que essa galera não paga mais uns dois reais para ter um refri de marca? Relevei: Então, eu não sou da religião. E ela disse que não tinha problema, que eles estavam ali para confraternizar, e também passou um pedaço de bolo. Enquanto eu mastigava o cake maçudo, que grudava nos dentes, ela perguntou se eu aceitava Jesus. Não ia rolar de não aceitar Jesus depois de aceitar bolo e o guaraná, né?! Jesus estava no combo sem fritas. Antes de saltar no fim do ramal, a dona ainda me ofereceu uma folhinha das Testemunhas de Jeová e um exemplar do Sentinela.

Vazando do trem e entrando de novo no 383. Méier e Cascadura já iam longe. Madureira, Oswaldo cruz, Vila Valqueire, já é, precisava saltar no próximo ponto. A menina que estava ao meu lado argumentou que ainda não tinham cortado o bolo. A festa corria animada. Dane-se, vamos nessa. Em determinado momento, o ônibus saiu do Valqueire e assumiu um recuo de ponto em Sulacap; o motorista desligou o motor, em tempo de tomar uma multa e uma chamadona da viação que faz a linha, e juntou com a galera no parabéns.

História de Thiago Jatobá, escrita por mim.

 

 

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